segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Aos quinze anos o coração já cresceu, mas ninguém repara. Não o deixam bater como devia. As crianças crescem e os adultos envelhecem. E o que faz o adolescente ? Coitadinho, não tem hipótese: adolesce. Aos quinze anos, o mal é este: nem se é tratado como adulto (como se queria) nem se é tratado como criança (o que sempre consolaria). Não se é tratado. Ponto final. Os quinze anos são intratáveis. Os mais novos - a malta do armário, enfrentado o absurdo da puberdade - não têm nada, mas nada a ver. Os mais velhos olham para quem tem quinze anos como se olha para quem tem lepra. Restam apenas as outras pessoas com quinze anos, mas essas estão demasiado ocupadas com ter quinze anos para poderem reparar nas outras almas com as quais partilham tal aflição. Só apetece chorar. É o que se faz.
Chora-se muito. Aos quinze anos tudo é muito importante. É-se uma pessoa nova pela primeira e única vez na vida e o mundo, difícil e grande, percebe-se e faz-se pesar tal e qual ele é. (A partir dos dezasseis anos já não se aguenta e finge-se que é mais fácil ou mais pequeno.) Aos quinze anos tudo é muito tudo, e é tudo ao mesmo tempo. Há muitas coisas que se querem muito e sofre-se muito por não as ter e brada aos céus o quanto se precisa realmente delas e parece impossível que ninguém perceba. E é incrível como toda a gente se junta para nos impedir de alcançá-las. E é muito triste saber que há-de ser assim durante toda a vida, que é quanto dura ter quinze anos. Mas a luta continua. Aos quinze anos, tudo é muito, simplesmente. Qual simplesmente ! Complicadamente. Tudo é muitíssimo. É preciso muito e é muito preciso. É tudo muito lindo e muito difícil e muito injusto e muito urgente e pronto - será isto assim tão difícil de perceber ? O mundo é mesmo como se vê quando se tem quinze anos, só que acabamos por desistir de vê-lo assim, porque custa tanto. (...)Como fazer então ? Como fazer quando se tem quinze anos ? A primeira indicação de guerrilha é psicológica. Mentalizem-se: quinze anos é muito tempo. É muito ano já. Ter vivido quinze anos, ter chegado, já é qualquer coisa. Parabéns. Agora chega de peneiras. A luta continua.
Miguel Esteves Cardoso, Os Meus Problemas (adaptado)

domingo, 15 de abril de 2007

Ela - Já viste? Este mar tão bonito, esta praia maravilhosa. É mesmo o local perfeito.
Ele - Não há nenhum lugar no mundo onde eu preferisse estar contigo.
Ela - Não digas disparates! Adorava conhecer o mundo...
Ele - Um dia partiremos os dois à descoberta. O que achas de Nova Iorque?
Ela - Nova Iorque! Adorava! Sonhamos tanto nós.
Ele - Sim, é certo. Mas eu gosto de sonhar, penso que podia sonhar ao teu lado, acordar ao teu lado.
Ela - Acho que estou preparada.
Ele - A sério?
Ela - Sim. Esta praia é o local perfeito.
Ele - Amo-te!
(beijam-se)
Ela - Mais logo (ri-se) está tanta gente aqui.
Ele - Tens razão (riem-se e ele deita-se na areia) São as melhores férias de sempre. Aqui contigo... Não há nada que um Homem possa desejar!
Ela - Não sei não. É a nossa última noite juntos, amanhã eu volto para a minha terra e tu ficas cá. Como é que vai ser? Não queria pensar nisso, não te quero perder...
Ele - (levanta-se) Dá-me a tua mão, vou-te mostrar uma coisa.
(Leva-a até ao topo da falésia)
Ela - Uau! Vista porreira mas..que se passa?
Ele - Olha para baixo!
Ela - Não! Tenho vertigens!
Ele - Olha para baixo! Vê aqueles dois.
Ela - Que tem? É a Marta e o Miguel.
Ele - Ela está a chorar e ele a dizer-lhe ''para o ano há mais, não nos vamos separar, vou-te telefonar todos os dias e vou-te visitar''.
Acreditas no que ele diz?
Ela - Sim. Ele gosta imenso dela.
Ele - Olha eu não acredito. As coisas à distância não funcionam! Vão ter sempre outros compromissos e vão conhecer outras pessoas. Quero que vejas isto como a realidade. Eu gosto de ti, este verão foi espectacular mas depois dificilmente irá resultar. Eu não quero tentar Catarina, não te quero magoar não quero perder o que há de especial entre nós. Por isso vamos aproveitar hoje o presente e não nos preocuparemos com o futuro.
Ela - (sorri e abraça-o) Não está aqui ninguém...